Minha memória mais antiga é de um objeto verde. Um pedacinho
de plástico qualquer que achei no quintal da casa para onde a família se
mudara. Um monte de terra e um brinquedinho improvisado. Devia ter 2 anos. Ou 3.
Anos passaram e deles restaram umas poucas fotos em branco e preto. Delas saem umas lembranças
fabricadas de vestidos azul, lilás, vermelho. Todos com babados e cianinhas. Coisas
que caíram em quase desuso. As avós caprichosas do interior ainda as
utilizam em panos de pratos. Aqueles de saco alvejados e algum bordado. Nas fotos, cabelinho alinhado com as pontas
para cima, como as estrelas de hollywood
dos anos 50. Grace Kelly. Nunca sorrindo. Aprendi a sorrir para as fotos
depois dos trinta e cinco. Descobri que era o jeito de parecer bonita. Antes,
apenas as evitava. Mas aquele verde me persegue. Tento encontrar o tom e a forma. Ele foge na incerteza de uma coisa lembrada ou sonhada.
No Além
Quando deu por si estava morta. Não que soubesse imediatamente, mas achou tudo meio estranho e uma alma caridosa que passava por ali, vendo sua cara de perdida, lhe avisou. Aqui é o Além, minha filha. Vais ficar por aqui um tempo, fazendo estágio. Depois veremos para onde você vai. Ela mal conteve seu espanto. Fazia dois ou três dias que ainda estava trabalhando na Gávea, na casa da patroa que conhecia há vinte anos. A casa que cuidava como se fosse sua. Sabia de cada rachadura nova, cada mancha que teimava aparecer na pintura já meio antiga. Conhecia-a melhor que os próprios moradores, tinha certeza. Há dois dias estava ali ainda, meio ofegante, mas teimando em ser firme. A patroa tinha voltado de viagem na semana anterior, as coisas ainda não estavam bem arrumadas como deveriam estar e por isso, disfarçou o mal-estar quanto pôde. Já bastava a patroa adoentada. Deve ser o ar condicionado do avião, se lhe disse. Sabe como é, muitas horas. Sabia não. Esse negócio de Europa e ...
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