Postagens

Mostrando postagens de julho, 2022

No Além

Imagem
  Quando deu por si estava morta. Não que soubesse imediatamente, mas achou tudo meio estranho e uma alma caridosa que passava por ali, vendo sua cara de perdida, lhe avisou. Aqui é o Além, minha filha. Vais ficar por aqui um tempo, fazendo estágio. Depois veremos para onde você vai. Ela mal conteve seu espanto. Fazia dois ou três dias que ainda estava trabalhando na Gávea, na casa da patroa que conhecia há vinte anos. A casa que cuidava como se fosse sua. Sabia de cada rachadura nova, cada mancha que teimava aparecer na pintura já meio antiga. Conhecia-a melhor que os próprios moradores, tinha certeza. Há dois dias estava ali ainda, meio ofegante, mas teimando em ser firme. A patroa tinha voltado de viagem na semana anterior, as coisas ainda não estavam bem arrumadas como deveriam estar e por isso, disfarçou o mal-estar quanto pôde. Já bastava a patroa adoentada. Deve ser o ar condicionado do avião, se lhe disse. Sabe como é, muitas horas. Sabia não. Esse negócio de Europa e aviã

Fora de casa

Imagem
  Viajar serve para muitas coisas. A melhor é colocar uma perspectiva entre você e as suas certezas. As minhas são poucas, mínimas, raquíticas. Mas, mesmo assim, logo estão sendo nocauteadas por um pulinho ali no agreste. Um dia, deixando o litoral atrás de mim e duas centenas de quilômetros depois, já no interior do Rio Grande do Norte, fui visitar um engenho de cana-de-açúcar. Paisagem seca, verde escasso. Numa estradinha em que se podia ver ao longe vacas magras e cabras prenhas, um engenho raiz. Um galpão acanhado de madeira velha e uma fornalha capaz de derreter metal e vidro. Ao lado do grande tacho, uma mulher ainda moça, mas já desdentada, fazia um doce movimento em ésse para que a rapadura fosse lisa. A rapadura perfeita ao custo de cozinhar também os músculos e o sangue e os dentes da mulher. Revi 150 anos de ventre livre. Uma tataravó devia embalar a mesma cana até que esta se tornasse um líquido quase tão escuro quanto a pele dela. O Brasil é pura repetição de crueldad